Zumbi caminha entre nós

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No último Dia da Consciência Negra (20 de novembro de 2014 e. c.), fui chamado a participar de uma mesa redonda sobre políticas públicas voltadas à população quilombola, parte de um grande evento realizado na Comunidade Quilombola de Capoeiras, localizada no município de Macaíba, Rio Grande do Norte, vizinho a Natal.

Uma das falas, para mim a mais contundente, foi proferida por uma das mais atuantes lideranças quilombolas potiguares, Dona Neta, do Quilombo Sítio Grossos. Tendo em vista que o 20 de novembro é comemorado em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares, a eloquente Dona Neta falou um pouco sobre a força simbólica dessa marcante figura histórica que liderou o maior quilombo já existente no Brasil.

Chamou-me particular atenção o fato de ela ter se referido à data em questão como o aniversário do “nascimento de Zumbi'”, e não de sua morte. Embora eu tenda a achar que se tratou de um lapso por parte da líder quilombola, não posso deixar de perceber nesse possível ato falho um forte significado alternativo ao sentido oficial da data. Em 20 de novembro de 1695, Zumbi nasceu para a História.

Durante sua existência, o Quilombo dos Palmares viveu como que num universo paralelo, um mundo à parte daquele da Colônia, quase como se existisse numa outra continuidade histórica, um outro tempo que não o da Metrópole portuguesa, que não o da história europeia. O líder Zumbi se criou neste mundo alternativo, sob outro calendário. Ao ser decapitado na luta contra o Império, surgiu para o mundo exterior, dominante, opressor e instituído com base na força imperialista. No dia 20 de novembro de 1695, Zumbi apareceu como um poderosa figura para a História hegemônica, foi então que ele nasceu para o Mundo. (Assim como Obi-Wan Kenobi que, ao enfrentar Darth Vader, profeticamente anunciou: “Se me matar, eu me tornarei mais poderoso do que você jamais poderia imaginar”.)

Os palmarinos consideravam que Zumbi era imortal, e seus assassinos pretenderam mostrar que ele não passava de um homem comum (o que é bastante lisonjeiro por parte de quem pensava nos negros como menos do que seres humanos). No entanto, vemos hoje que Zumbi sobrevive forte na memória do Dia da Consciência Negra. Isso é de certa forma ressentido pela elite branca, obrigada a acatar tão grande importância histórica de uma celebridade negra. Além disso, essa elite se vê diante da necessidade de se celebrar o grande líder quilombola, pois a data é legalmente instituída como comemorativa.

Dona Neta, em seu discurso, aludiu à recente polêmica em torno da proposta, revogada, de se oficializar o feriado do Dia da Consciência Negra no Rio Grande do Norte. Ela frisou que há diversos feriados dedicados a figuras históricas brancas, das quais talvez Tiradentes seja um dos mais célebres, e não há feriados nacionais dedicados a personagens afrobrasileiros, como Zumbi, que foi e é tão importante para a população negra do Brasil (não se trata, é claro, de reivindicar meramente um dia sem trabalho, mas de dar visibilidade e tratamento igual a personagens históricos não-brancos).

A notável mulher enfatizou essa importância ao comparar o grande guerreiro negro de Palmares a Jesus (o que é bastante intrigante, visto que a maioria absoluta dos quilombolas presentes no evento são cristãos – católicos ou evangélicos), afirmando que, assim como o Messias nazareno, ele morreu lutando contra um Império para salvar seu povo, para libertar os negros escravizados (não adianta, aqui, remeter ao fato de ter havido escravos negros em Palmares, “fato”, aliás, controverso e provavelmente mal-compreendido pela História Oficial, mas sim tomar o herói em sua força simbólica – assim como, para os cristãos, importa menos o Jesus histórico do que aquele imortalizado como lenda nas Escrituras).

Zumbi é um morto-vivo, um fantasma que precisa ser trazido à vida todos os dias de nosso cotidiano repleto de um racismo colonial e com vestígios de escravismo. Apenas um dia do ano para a Consciência Negra é muito pouco, pois todos os outros dias pertencem tacitamente aos brancos e são por eles protagonizados. Todos os dias o espectro de Zumbi precisa ser invocado para que cada “dia de branco” seja também dia de todos os que participam ativamente dessa mesma sociedade, na medida em que encontram e conquistam espaço para ter sua existência visibilizada, representada e reconhecida igualitariamente.

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