Mulher Maravilha e o alcance da representatividade

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Não devemos ignorar a importância de certos padrões, quando um fenômeno se repete à exaustão, mesmo que essa repetição não seja óbvia. Tampouco devemos ficar quietos a respeito da quebra desses padrões, por mínima que seja, pois às vezes é essa mesma quebra que evidencia uma repetição que andava ocorrendo sem que muitos de nós se dessem conta disso, e sem que a maioria percebesse que um padrão, especialmente um padrão nas representações sociais, pode implicar em sentimentos de exclusão por parte de uma parcela das pessoas.

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A loteria do mérito

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Ao ler Jogos Vorazes (Hunger Games), de Suzanne Collins, refleti bastante sobre os mecanismos pelos quais as relações de poder são mantidas e justificadas em nossa sociedade. Especialmente marcante é a própria instituição dos jogos vorazes sobre os quais se centra a história do livro, uma espécie de circus maximus romano adaptado a um cenário futurista.

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Una, romance gráfico e empatia

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Alfredo Bosi, no artigo “A Poesia Ainda é Necessária?”, afirma que uma das principais funções da linguagem lírica é aproximar o leitor daqueles que estão distante de nós, dar visibilidade aos socialmente invisíveis. A prosa também tem essa capacidade, especialmente se considerarmos a visão de Mikhail Bakhtin sobre o romance (e a linguagem prosaica em geral), segundo a qual esse tipo de escrita tem o poder de veicular vozes diversas e nos fazer compreender diferentes formas de se representar o mundo.

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Caro Augusto…

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Natal, 28 de agosto de 2015 e.c.

Caro Augusto,

Desde a última vez que nos falamos um vulto alado persiste em rondar minha cabeça. Simplesmente genial sua alegoria da consciência, equiparada a um morcego que volteava sua rede naquela meia-noite desconfortável. Não sei nem quero saber se você tem problemas graves de consciência pesada ou se tudo não passou de fabulação sem conhecimento de causa. Mas de uma coisa estou bem certo: mesmo que se possa provar que há pessoas que não são atormentadas por sentimentos de culpa, todos nós temos, no mínimo, um pouco de insanidade. E tendo em vista uma pitoresca ocorrência pela qual passei outro dia, enquanto tentava descansar na sombra de uma árvore, e que me fez lembrar do seu Morcego, constatei que a consciência quiróptera é apenas uma faceta da loucura humana, ou um tipo de doideira específica (não uma doidice, o que é bem diferente).

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O universo colorido de Steven

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Há tanta, tanta coisa a se falar sobre Steven Universo (Steven Universe) que cá eu fico planejando vários textos para abordar tantos dos temas que aparecem ao longo dessa bela série. Mas se não vier a ser o caso, ao menos vou apresentar aqui diversas das razões porque acho esse desenho animado tão apaixonante e instigante e porque penso que vale a pena lhe dar uma chance.

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Empatia e estupro

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Para muitas pessoas, o processo de cultivar a empatia é um exercício de abstração. Para homens vivendo numa sociedade machista, por exemplo, é quase impossível entender o que sentem as mulheres quanto a assuntos como estupro. Por isso é que há diversos homens se divertindo com a notícia de uma adolescente estuprada por 30 indivíduos do sexo masculino, fato ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 20 e divulgado pelos próprios agressores no dia 25; por isso é que os estupradores em questão não conseguem pensar na vítima como uma pessoa com sentimentos, com inteligência, com alma; por isso é que mesmo entre aqueles que se indignaram há os que relativizam a violência e amenizam o papel dos agressores, atribuindo parte da culpa à vítima; por isso é que vemos poucos homens comentando com racionalidade sobre o assunto enquanto muitas mulheres expressam sua revolta.

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A desconstrução do universo continua – #UD2

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2013 marcou o cenário da ficção científica brasileira com o lançamento da coletânea Universo Desconstruído: Ficção Científica Feminista. No livro, distribuído gratuitamente em formato digital e disponibilizado para compra no Clube de Autores, Lady Sybylla e Aline Valek, junto a outros oito autores, apresentaram dez contos em que as mulheres aparecem como personagens centrais e sem cair nos estereótipos da indústria do entretenimento. Ao invés de aparecerem como donzelas em apuros, aqui elas são heroínas; no lugar de objetos decorativos, as protagonistas são agentes de mudança social; em vez de mulheres trabalhando para auxiliar personagens masculinos, vemos sujeitos com autonomia e na busca da realização de seus anseios.

O volume teve grande repercussão na internet e fora dela, e em 2014 as editoras do selo Universo Desconstruído publicaram a primeira tradução para o português do conto “O Sonho da Sultana“, de Roquia Sakhawat Hussein, escrito em 1905, considerado o primeiro conto de ficção científica feminista. Nesse ínterim, elas organizaram a segunda coletânea de contos originais, chamando diversas autoras e autores para compor Universo Desconstruído – Volume II.

Contendo contribuições da própria Lady Sybylla, de Jarid Arraes (que traz um inusitado cordel de ficção científica!), Fábio Kabral, Marta Preuss, Ben Hazrael, Clara Madrigano, M. M. Drack, Thiago Leite e Theodore Guilherme (que produziu a arte da capa), a nova coletânea está sendo lançada hoje e continua seu trabalho de desconstruir o status quo de um gênero literário que muitos pretendem manter sob monopólio daqueles que são privilegiados socialmente, especialmente homens brancos heterossexuais e cisgêneros. Esses “protetores” da ficção científica ignoram que o gênero há muito tempo vem sendo construído por autores os mais diversos, tendo sido inclusive inaugurado por uma mulher (Mary Shelley, com Frankenstein), e não percebem que essa noção de que a ficção científica “pertence” aos homens brancos é recente.

Tive a inestimável honra e o enorme prazer de participar desse segundo volume do Universo Desconstruído, contribuindo com o conto “O Resgate de Andrômeda”. Foi muito bom trocar ideias com as organizadoras da coletânea e conhecer pessoas novas que se preocupam em desconstruir ideias preconcebidas e estereótipos, divulgando suas ideias e abrindo portas para o debate transformador.

Para baixar o livro, basta selecionar um dos formatos disponíveis (PDF, epub ou mobi) e clicar no link correspondente abaixo. Você deverá “pagar” o download com um compartilhamento no Twitter ou no Facebook. Se preferir a versão impressa, clique na imagem da capa (canto superior direito do post) ou aqui para ser redirecionado ao site Clube de Autores.

PDF epub (e-reader)
mobi (Kindle)

Links

Blogagem coletiva dos autores

Star Wars, cinema, representatividade e inclusão

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As palavras que compõem o título deste texto estão, em teoria, mais ligadas entre si do que pode aparentar à primeira vista, mas na prática elas estão desanimadoramente dissociadas.

Star Wars é uma grande franquia cinematográfica hollywoodiana que trouxe à tona uma tipo de história que estava de certa forma desacreditado: as grandes narrativas épicas e fantásticas. Esse tipo de aventura tem como característica, mais do que as maravilhosas cenas de ação e viagens fabulosas, o fato de se centrar em um herói improvável, uma figura que acaba mostrando ser muito mais do que aparenta ser. Luke Skywalker é exatamente o mesmo arquétipo de Páris de Troia, Jesus Cristo de Nazaré, Bilbo Bolseiro de Bolsão. Um “ninguém” que não acredita em si mesmo mas se torna um herói.

Durante muito tempo, a saga Star Wars foi protagonizada por personagens que representam os tipos humanos privilegiados nas sociedades ocidentais. Luke Skywalker era pobre e vivia à margem da sociedade galáctica, mas era um homem branco, cisgênero e heterossexual (embora este último aspecto só fique implícito num beijo incestuoso…), com o qual era mais fácil de se identificarem os jovens espectadores do sexo masculino, cisgêneros e heterossexuais. Dos outros dois personagens principais, Han Solo caía no mesmo estereótipo de Luke, e só Leia Organa se diferenciava por ser mulher, mais nada.

Representatividade

Felizmente, J. J. Abrams (que, ironicamente, ao assumir Star Trek, uma franquia com forte potencial para representar a diversidade, a fez regredir neste quesito) está radicalizando esse aspecto de Star Wars, colocando nos papéis de maior destaque do Episódio VII: O Despertar da Força, uma mulher e um homem negro. Essa escolha repercute positivamente nas mentes dos espectadores (mesmo que essa repercussão se dê através de um desagradável incômodo para machistas e racistas), pois se tratam de duas minorias em nossa realidade, o que enriquece o sentido da jornada do herói como a empreitada maravilhosa de um ou mais indivíduos menosprezados socialmente (seja, num caso, pelo machismo, seja pelo racismo, no outro).

Nisso o filme promete ser um belo exemplo de representatividade na indústria do entretenimento, ao ampliar o escopo do público que pode se identificar mais facilmente com heróis notáveis em histórias fantásticas. Os meios de comunicação de massa têm grande impacto sobre o grande público e a sociedade ocidentais, e a representatividade tem enorme peso sobre a auto-estima das pessoas e suas perspectivas de futuro.

Acessibilidade

Na verdade, a representatividade de O Despertar da Força está sendo amplamente discutida e o que eu estou trazendo aqui não é nenhuma novidade. Porém, o ponto a que quero chegar é outro. Representatividade está relacionada, direta ou indiretamente, a acessibilidade. Ora, houve um tempo nos EUA em que, além de estarem excluídos do protagonismo em peças de teatro e obras cinematográficas, os negros estavam segregados dos brancos em diversos espaços, públicos ou privados, e geralmente os espaços reservados às “colored people” eram de pior qualidade do que aqueles voltados às pessoas brancas. Essa segregação, embora tenha sido proibida por lei, deixou marcas até hoje. (No Brasil, o racismo se manifestou de outras formas, mas seus efeitos são muito semelhantes.)

As transformações sociais que afetam a balança da igualdade dos gêneros também encontram correspondências entre a crescente representatividade das mulheres nas mídias e as conquistas de direitos igualitários pelo Feminismo. Hoje em dia, as mulheres têm acesso ao voto democrático e a cargos de chefia, embora ainda haja muito pelo que lutar para que as elas sejam tratadas como seres humanos plenos.

Pessoas com dificuldades de locomoção, com deficiências físicas e sensoriais e outras inadequações a uma sociedade feita para indivíduos “saudáveis” (que têm um certo tipo idealizado de corpo), ao mesmo tempo em que não conseguem se adequar bem a certos espaços e tecnologias, também são sub-representadas nas mídias. Nisso elas passam por uma situação análoga à dos negros vítimas da segregação racial, pois sofrem por causa do capacitismo (estando assim – talvez não-intencionalmente – segregados) e pela pouca representatividade de pessoas com deficiência na ficção (literatura, quadrinhos, cinema, séries de TV etc.).

Não bastassem as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência numa sociedade que a muito custo se adapta à diversidade de corpos, surge um problema maior para quem tem deficiência visual (miopia, estrabismo, cegueira parcial, visão monocular, vista cansada e outras). O crescente abuso do “3D” nos filmes hollywoodianos, com muitas estreias sendo feitas apenas com cópias que só podem ser assistidas com o uso de óculos especiais, exclui boa parte do público dos cinemas e provoca grande incômodo para outra parte.

“3D” e exclusão

Eu comecei essa reflexão a partir de mim. Tenho visão monocular, i.e. só enxergo pelo olho esquerdo (e mal). Não consigo ver a “tridimensionalidade” dos filmes “3D” (aliás, tenho até dificuldade de perceber a dimensão da profundidade no mundo físico real). Já fui a algumas sessões de filme em “3D” e consigo assistir em “2D” quando coloco os óculos (como um dos olhos não enxerga uma das imagens superpostas, fico apenas com uma delas), com o agravante de ver tudo escuro, devido à obscuridade da lente. Nas primeiras vezes em que fiz isso, eu escolhi as sessões em “3D” por conveniência social, por estar em companhia de outras pessoas que queriam ver os filmes com esse recurso.

Mas me cansei de pagar mais caro por um serviço de que não posso usufruir. Tudo bem, cada um escolheria a sessão que gostaria de ver, os filmes eram oferecidos em duas versões, e cada um pagaria o preço “justo” pela presença ou ausência desse recurso da moda, por quaisquer razões que fossem (impossibilidade de ver em três dimensões ou desagrado com tal recurso). Mas não por muito tempo.

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Quando a indústria cinematográfica descobriu que poderia lucrar muito mais se oferecesse apenas sessões em “3D” nas estreias das superproduções, pessoas como eu passaram a ser excluídas da experiência de ver um filme novo nos cinemas. Apesar disso, em muitos casos os cinemas ofereceriam uma sessão “2D” dublada, excluindo o espectador que prefere ouvir no idioma original (o que rende outra discussão).  Na melhor das hipóteses, teríamos que esperar algumas semanas para que os cinemas oferecessem sessões em “2D” e legendadas. Muitas vezes, teríamos que recorrer à pirataria virtual sem nenhum remorso ou esperar anos para ver o filme na TV ou em sistemas de streaming como o Netflix.

Com o tempo, conversando com amigos na internet e pesquisando sobre o assunto, descobri que não são apenas pessoas com visão monocular que se prejudicam com o monopólio do “3D” nas estreias. Pessoas com estrabismo e pessoas com miopia em um dos olhos e outro não também não enxergam as três dimensões ilusórias desses filmes. Além disso, muitas pessoas reclamam de sentir a vista cansada, dor de cabeça e/ou enxaqueca depois de uma sessão de filme “3D”, e prefeririam assistir a sessões em “2D” dos filmes que querem tanto ver.

Esse é um contingente significativo dos cinéfilos, excluído de seu hobby, sua paixão, sua mania ou até de seu trabalho por causa da preocupação maior da indústria do cinema com o lucro do que com o público. O que não é surpreendente, tendo em vista aquilo que move o capitalismo do qual essa indústria é uma significativa engrenagem.

Star Wars

A franquia Star Wars está melhorando significativamente quanto à representatividade da diversidade humana. Mas a preocupação com a maior visibilidade de mulheres e negros em papéis de destaque, tornando mais premente a acessibilidade dessas minorias aos espaços públicos e privados de uma sociedade mais igualitária, ainda não consegue perceber que a mania do “3D” está indo na contramão desse movimento. É irônico pensar que uma das figuras mais icônicas da saga era uma pessoa com deficiência física (Darth Vader teve as duas pernas e os dois braços amputados, e ainda sofreu queimaduras seriíssimas que o obrigaram a usar para o resto da vida uma armadura cibernética com membros mecânicos e suporte vital).

Fui comprar meu ingresso para Star Wars VII: O Despertar da Força na pré-venda, e todas as salas na semana de estreia no Cinépolis serão em “3D”. Paciência… Fui então ao Cinemark, e a situação é a mesma. Procurei no site do Moviecom, o cinema que menos prefiro aqui em Natal, e vi que haverá uma sala com cópia em “2D” – mas será dublada, e para mim a experiência de escutar as falas no idioma original é muito melhor (…como disse acima, um outro problema, para outra discussão).

A indústria cinematográfica está tornando menos acessível o entretenimento daqueles que há muito tempo são fãs da franquia e que, mesmo considerando essas críticas, certamente contribuiriam com resenhas logo na semana da estreia, se tivessem ao menos uma sessão “2D” para não perder a grande festa nerd que será essa bem-vinda renovação do universo dos jedis, de alienígenas pitorescos e de tecnologias nostálgico-futuristas de há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante. Um mundo que não precisa ser projetado com mais de duas dimensões na telona, pois sua profundidade está na maravilhosa fábula que se dispõe a contar.

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Foi num dia como este que ela se deparou com o abismo dos olhos do gato. Não foi um encontro qualquer, não só porque se assustou pelo inesperado deparar-se com a criatura, nem somente por causa da assimetria cromática das íris do animal, mas porque do fundo das retinas deste faiscava algo fantasmático.

O olho verde, o da esquerda, era uma roda com 8 setas apontadas para fora, e emanava uma energia entrópica e muito forte, como se aquela pupila obscura fosse o manancial do próprio Caos. O azul, direito, era sulcado com 13 raios, e a luz do sol poente parecia fazer com que o disco do olho girasse, uma Roda da Fortuna que prometia o inaudito naquele anoitecer de lua cheia, embora fosse o que ela menos quisesse depois de uma semana exaustiva, mas era o que ela mais necessitava, apesar de ainda não saber disso.

Tudo isso ela observou no único segundo em que esteve diante do felino, que rapidamente pulou da janela em que estava empoleirado e correu como um feixe de luz branca para dentro de um beco próximo. Sem pensar demais, ela seguiu o bicho, adentrando o estreito corredor entre duas casas, quase perdendo de vista sua presa. Mas conseguiu avistar a ponta alva da cauda sumindo por cima do telhado.

Prontamente ela começou a subir o andaime que ligava os três andares da casa à sua direita, e foi tão afoita que não percebeu que deixara cair um dos sapatos, só sentindo falta dele quando alcançou o teto, só tendo tempo de ver o gato pular para o telhado de outro prédio, o que rapidamente ela também fez, para o que teve que abandonar resolutamente seu outro sapato. Sem compreender como foi capaz de saltar aquele abismo, achou ainda mais difícil entender como sentiu em que direção o gato correra, tendo ele desaparecido de sua vista.

Mas para descer pelo poste que a levaria até a entrada do terreno baldio em que ela tinha certeza que o diabrete se escondera, teve que largar, sem pestanejar, a bolsa. O céu já escurecera um bocado e ficou difícil se localizar o meio daquele mato denso. Ela parou um instante para se acostumar à penumbra e começou a ver pequenas luzes ao seu redor. Nunca vira vaga-lumes por essa região antes. Porém, não estava vendo senão os olhos de vários gatos que a cercavam.

O susto se arrefeceu aos poucos ao perceber que os animais não estavam se aproximando dela, como pensou a princípio, mas se mantinham posicionados num círculo no exato meio do qual ela se encontrava. E nisso o pavor começou a tomar conta dela. Ela girou sobre os calcanhares e percebeu que havia ali 12 felinos de várias cores, nenhum igual ao outro, formando um círculo perfeito, cada um deles como uma das marcações de um relógio. Repentinamente ela se perguntou onde estava o gato branco que a trouxera ali…

…quando ele surgiu do nada, caminhando despreocupadamente até ela, miando algo que parecia uma frase balbuciada por um moribundo. Um a um, todos os gatos começaram a miar, e ela se sentiu no meio de uma orgia felina agonizante que a fez girar várias vezes, vendo as 26 retinas luminosas formando estrelas cadentes ao seu redor e desfalecendo no exato lugar em que pisava. O gato lambeu seu nariz e sua testa. Fitou seus olhos assustados e piscou, tranquilizando-a. Então aconchegou-se no regaço dela e os dois dormiram enquanto os outros 12 se dispersavam na noite.

Ela sonhou que era uma gata branca que tinha o Sol num olho e a Lua no outro.

[Continua…]

De volta ao futuro do passado

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BTTF2Provavelmente você já sabe que o último dia 21 de outubro foi a data que, num universo paralelo fictício, um jovem e sua namorada do ano de 1985 visitariam com o auxílio da máquina do tempo de um velho cientista extravagante. Em De Volta para o Futuro (1985), Dr. Emmett L. Brown leva Marty McFly e Jennifer Parker em seu DeLorean voador movido a lixo e equipado com o capacitor de fluxo até 30 anos no futuro. Esse é o desfecho do filme. Já na continuação, De Volta para o Futuro II (1989), assistimos ao que os três presenciaram em seu fabuloso futuro e as maravilhas de um tempo vindouro.

Enfim, a vibe pelo fato de essa ter sido a mesma data em que se passa parte dos filmes da trilogia é tamanha que a internet está repleta de matérias, artigos, memes, vídeos e fotomontagens referentes a De Volta para o Futuro, com piadas sobre a estreia de Tubarão 19, listas das “previsões” futurológicas certas e erradas e críticas bem-humoradas sobre o utopismo que sonha com um belo futuro que ainda está longe de se tornar realidade.

Não deveríamos levar tão a sério a perspectiva de futuro dos produtores dos filmes, tendo e vista seu caráter cômico e a necessidade de imaginar certas coisas apenas como meio de dar sentido à trama, mais do que retratar as previsões futurológicas daquela época e daquela cultura (EUA do final da década de 1980). Mesmo assim, é interessante pensar como o filme revelou, mesmo que jocosamente, as noções do que significa o futuro, do que é relevante pensar como tendo um “futuro”, daquilo que épassível de evolução, das coisas que se desejam que mudem e o que pode perfeitamente permanecer do mesmo jeito que está (ou esteve por longo tempo).

É notório, por exemplo, ver duas policiais em ronda resgatando Jennifer (que havia desmaiado e sido deixada num beco enquanto seus companheiros de viagem resolviam sua missão), mostrando a visão de um futuro em que papéis social e tradicionalmente ocupados por homens podem vir a ser também exercidos por mulheres. No entanto, as relações familiares dos McFly parecem repetir a mesma lógica sexista de décadas atrás, com um “pai de família” tentando se manter num emprego para sustentar financeiramente sua mulher e seus filhos, todos estes com o sobrenome de Marty McFly.

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Esta lógica de parentesco patrilinear, tão arraigada em nós, é na maioria das obras de ficção futurista mantida como algo normal, “natural”, não-passível de mudança e irrelevante enquanto questão a ser ponderada (isso acontece até em realidade ultratecnológicas e pretensamente utópicas, como Star Trek). Por outro lado, a luta pela conquista de direitos trabalhistas das mulheres é algo tão gritante que seria uma gafe muito grande não atentar para isso, e as policiais, uma delas negra, representam bem uma visão de futuro desejável para todos.

Quando Marty perambula pela versão futurista de sua cidade, vemos um elemento que representa outra expectativa utópica: a facilidade de se consumir. Numa radicalização do domínio das empresas capitalistas sobre nossas vidas, tudo agora é baseado no autoatendimento, não existem ou pouco existem pessoas de verdade no balcão das lojas. Muitas vezes se enxerga essa condição como um sonho para o cidadão comum, que poderá se beneficiar dos produtos do mercado com o maior conforto e o menor esforço possível. Mas percebamos que esse é também o sonho da ganância dos empresários capitalistas que produzem essas mercadorias: com menos mão-de-obra humana, menos necessidade de se pagar salários e mais lucro para si. Para quem serve essa utopia, afinal?

Poderíamos, para problematizar esta pergunta, considerar o acesso maior ou menor aos recursos que possibilitam desfrutar dos produtos do mercado de consumo. Nos idos de outubro do 2015 real, ainda vivemos uma grande desigualdade econômica, e o sonho consumista de De Volta para o Futuro II só seria aproveitado por aqueles que pertencem a uma classe econômica mais ou menos favorecida. Mas isso nos leva a outro elemento instigante do futuro retratado no filme. Quando o Marty McFly de 1985 encontra o velho Biff Tanen, este o confunde com Marty McFly Jr. Biff diz a ele que seu “pai” (a versão mais velha de Marty McFly) é um fracassado na vida, dando a entender que não conquistou status econômico-social e ficou na classe dos menos favorecidos materialmente.

Porém, quando Jennifer Parker é levada a sua futura casa por engano (onde mora sua versão mais velha, Jennifer McFly), nós nos deparamos com um lar extremamente bem-provido de alta tecnologia e conforto. Tudo é ativado por voz, a casa é praticamente um computador-robô que fala com seus habitantes, temos televisores gigantes, reidratadores que preparam uma pizza semipronta em poucos segundos, sem falar dos acessórios pessoais como aparelhos que lembram o Google Glass, jaquetas com secagem automática e tênis que se amarram sozinhos.

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Esse cenário dá a entender que até os mais pobres têm acesso a tecnologias que oferecem o necessário à sobrevivência, o mínimo de conforto e até bastante luxo (e talvez um tanto de sedentarismo). Entretanto, ainda existem relações de exploração no mercado de trabalho e desigualdade de acumulação de recursos, o próprio Marty estando à mercê de seu rico patrão, que tem o poder de demiti-lo de forma imediata por se envolver em atividades escusas.

Podemos ainda, por último, apontar para um aspecto considerado bastante relevante pelos protagonistas da história, algo implicitamente tido por eles como uma conquista importante para o bem-estar dos habitantes do futuro utópico: a maior liberdade de ir e vir. Esta é possibilitada, especialmente, por duas novas tecnologias: uma previsão meteorológica precisa e os hovercrafts. A facilidade que o indivíduo tem de programar suas atividades com base na certeza de que a chuva vai parar às 4:31 da manhã e a grande mobilidade oferecida por um carro voador são grandes avanços para uma sociedade cuja cultura coloca a liberdade individual acima de qualquer coisa.

As histórias fictícias sobre viagens no tempo para o futuro são interessantes para refletirmos sobre aquilo que almejamos para um mundo melhor. Quanto estamos preocupados, por exemplo, com a diminuição da desigualdade social, da violência de gênero, do racismo, das guerras, da aceitação da alteridade e de modos de viver que prescindem da noção de progresso tecnológico, como o encontrado em diversos povos ao redor do planeta? Dessa forma, em que grau um futuro tal qual o que se apresenta em filmes como De Volta para o Futuro II é utópico e em que medida ele é distópico? O que, na condição de indivíduo, de comunidade, de conjunto de povos e de humanidade estamos fazendo agora para construir uma utopia para todos? Nós estamos o tempo todo viajando em direção ao futuro, uma viagem no tempo que não tem volta (ao menos por enquanto).