Quatro amores

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O homem parece que leva chifre depois que começa a raparigar. Quando eu comecei a raparigar, comecei a levar chifre [V. C. P.].

Toma lá, dá cá. Os homens desta região do Brasil (no mínimo, mas em outras regiões deve ser a mesma coisa) tratam duas formas de infidelidade de duas formas diferentes. Se um homem está saindo com outras mulheres que não sua esposa, ele está raparigando ou se divertindo sem compromisso, o que não é motivo para conflito. Se uma mulher comete adultério, enseja a chacota e o título de corno ao marido e pode levar a briga e separação. Claro que em alguns contextos há mais simetria, mas parece que esta ainda não é completa.

Vênus e Marte, de Botticelli

Um homem disse estar junto da oitava companheira desde que se casou pela primeira vez. Os motivos das separações, disse ele, geralmente foram a infidelidade da mulher. Mas ele admite que nunca deixou de ser infiel, e diz que a mulher tem direito a fazer o mesmo que o homem faz, contanto que, se ela o fizer, ele a abandone. Ao dizer isto, gargalha.

Um tema recorrente em alguns estilos de música é o lamento do homem pelo abandono da mulher amada. Um colega meu disse que é “música de corno”, já que grande parte do motivo alegado nas letras é a infidelidade feminina. É o tipo de música satirizada pelos Mamonas Assassinas na canção Bois Don’t Cry. O interessante é que escutei um mesmo músico cantando esses chororôs e, em outra música, as maravilhas do “amor de rapariga”. Ou seja, se reclama do adultério de sua musa, quer que esta aceite o seu.

Esse estado de coisas é uma dificuldade para que os casais vivam uma relação na qual possam se considerar livres. Ou seguem à risca o contrato mútuo de fidelidade, ou consentem ambos que cada um possa ficar com outra pessoa em certas situações. Ambas as condições são difíceis de se praticar, sem percalços, para a maioria das pessoas.

As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer BradleyA imagem da infidelidade masculina está muito relacionada à figura da prostituta. Tanto é assim que Morgana, a mulher com quem Arthur tem um filho, é uma bruxa, imagem que tem um parentesco com a da prostituta. Marion Zimmer Bradley, no entanto, reabilita Morgana, transformando-a em sacerdotisa de uma antiga religião bretã. Já a mulher que o traiu, Guinevere ou Gwenhwyfar (de acordo com Bradley), é uma rainha e seu amante é o melhor cavaleiro do rei.

IinfidelidadeTambém é uma rainha Connie Sumner, protagonista do filme Infidelidade, no qual ela, mulher do suburb norte-americano, tem um amante francês culto bibliófilo raparigueiro que vive no downtown, o que causa alguns problemas ao seu relacionamento, que são resolvidos de forma inusitada pelo marido.

Embora se possa caracterizar dessa forma os personagens da infidelidade, em alguns casos, alguns papéis se confundem. Pois o raparigueiro pode tanto ser um homem casado como um homem solteiro. Apenas no caso do primeiro ele pode também acumular o papel de corno. A esposa que trai, embora possa ser tida como chifreira, também pode ser chamada de rapariga ou vagabunda ou puta. Só não é chifreira a que é solteira.

Do Leite Materno ao Leito MeretrícioEm minha monografia de graduação em Ciências Sociais, discorri sobre as permutações entre as imagens negativas (prostituta) e positivas (mãe) da mulher, utilizando a poesia de Augusto dos Anjos como exemplo. A esposa é uma imagem positiva, semelhante à mãe. Na visão masculina hegemônica em nossa cultura, só há uma esposa, assim como só há uma mãe. Isso talvez justifique o sentimento masculino de que não é traição o homem sair com outra mulher com a qual não tem compromisso, da mesma forma que ter uma namorada ou esposa não é traição em relação à mãe, embora esta às vezes sinta ciúme. Mas é considerado traição a mulher ter outros homens, pois isso remete ao ciúme da criança pela mãe. Talvez, se vivêssemos numa sociedade ginocêntrica, as representações fossem invertidas.

A infidelidade feminina é motivo de escâmdalo, como se vê, por exemplo, no adultério de Afrodite (Vênus), cujo esposo, Hefesto (Vulcano), a flagrou na cama com Ares (Marte). Já Zeus (Júpiter) teve inúmeras amantes, o que causava a ira de Hera (Juno) e era motivo de piada e eufemismo. Mas hoje em dia as pessoas vêem cada vez menos motivos para vilipendiar os infiéis, mesmo no caso do adultério feminino. A honra ferida do homem é uma ilusão que perde cada vez mais o sentido.

Notas pós-texto

Mais um texto recuperado do colapso que este blog sofreu há alguns meses.

Outro filme que trata da infidelidade feminina é Mentiras Sinceras, sobre o qual escrevi uma resenha.

6 comentários sobre “Quatro amores

  1. hahahahaha, adorei, Marques!

    Super transcendental e metafísico, algo que diz respeito ao Dasein… a existência em sua essência… Se não fosse o Thiago não tinha percebido a profundidade disso tudo… 🙂

    Gostei do raciocínio: então se tua mulher é uma galinha, quer dizer que vc pode cantar de galo? E se ela for uma vaca? (complete vc mesmo: eu encontrei duas possibilidades de resposta… a biologia, como sempre, explica tudo…)

    É, não sei que tanto insisto em ser socióloga, se a biologia tem sempre uma explicação mais simples… alguns autores de humanas (influenciados pelos físicos, suponho, além de provavelmente serem leitores de Conan Doyle) são apologistas da elegância da tese mais simples. Eu, do meu jeito rabugento lindinho de ser, sempre desconfio dos argumentos estéticos da verdade (por outro lado, estudos de historiadores esteticistas demonstram que havia argumentos estéticos fortes nas verdades nazistas sobre a ordem do mundo e o lugar da raça ariana nele).

    Mas perdoem, por que gosto de escrever textos no espaço de comentários. Meu marido vive falando que não pega bem, mas eu adoro escrevê-los e lê-los, pois acho que a construção coletiva é sempre mais interessante, e ademais, nenhum de nós é uma ilha, e inventou a intelectualidade todinha do começo sem a contribuiçao de outros seres humanao – o que são os autores que lemos? Livros?

    Ah… nada como um bom debate no blog… então vou lançar algumas coisas no vento fresco (ói, que eu não quiz dizer gay, quiz dizer aerado… xi, eu só pioro as coisas) deste blog legal.

    1. A biologia, de antes de Desmond Moris até a era Dawkins, sempre esteve a "provar" que o homem é por natureza poligâmico, enquanto a mulher é monogâmica e o força à monogamia (sabe, aquele argumento véi que ela tem que investir na criação da cria…)

    Por outro lado, os estudos de antropólogos, historiadores, sociólogos – que devem ser assim, muito chatos mesmo, pois nunca vão parar na revista Exame ou Contigo, ou o que for… – apontam de varias formas para a hipótese de que a sociedade patriarcal se desenvolveu contra o perigoso poder da mulher. Várias as formas de contenção e mesmo de endemonização deste poder uterino foram inventados ao longo da história: as bruxas, por exemplo, Eva, antes dela Lilith (amo a figura da Lilith… tão má…tão dona de si…), a Vamp (mulher de útero descontrolado que "suga" e deglute homens sem dó), a destruidora de lares, a galinha… Ou o quadro (lindo) que você colocou no post… (note que os demônios estão fazendo um movimento que parte da mulher em direção de, dito pelo quadro com todas as letras, atacar o pobre homem, que está pintado no seu estado mais desprotegido (adormecido e nu)…

  2. @Flavia,

    As contradições essenciais que mostram o ser e sua estrutura num equilíbrio de forças contrárias… hum… tem a ver com o texto anterior, Objeto Neuronial 003.

    Pois é, a Navalha de Ockham é em si mesma complexa. É praticamente um pressuposto não-verificável a não ser por si mesmo… mas uma navalha não é capaz de cortar a si mesma. A estética pode até ajudar em alguns pontos da investigação científica e, principalmente, na divulgação. Mas é apanágio da arte, não dá para misturar as coisas de modo precipitado.

    É com satisfação que lhe informo, Flavia, que aqui você pode ficar à vontade para se delongar nos comentários. Na Teia Neuronial, comentários extensos pegam bem. 🙂 Eu às vezes também faço isso, você vai acabar descobrindo… A propósito, ontem mesmo eu estava pensando sobre como gosto das discussões elaboradas nos comentários. Às vezes eles se tornam mais importantes do que o texto que os originou.

    Pois é, a biologia, sempre provando as crenças arraigadas preconcebidas… Mas as mulheres são tão poligâmicas quanto os homens, é só dar as condições mesológicas adequadas…

    Maurice Godelier – num artigo que qualquer dia desses eu tenho que encontrar, pois vivo citando-o mas nunca lembro o título – diz que os mitos do matriarcado são uma forma de justificar socialmente o poder masculino, pois normalmente o matriarcado é descrito como um regime opressor no qual os homens sofrem muito sob o jugo feminino.

    Há um livro muito bom que cobre essa imagem demoníaca da mulher: A Mulher que eles chamavam Fatal, de Mireille Dottin-Orsini. O quadro de Botticelli, Vênus e Marte, realmente mostra essa representação negativa.

    Só "corrijo" uma observação: não são demônios, são sátiros. (Se bem que, para os cristãos do contexto em que foi pintado o quadro, já havia uma ligação entre a figura do sátiro e a ideia do mal…)

  3. AmBAr Amarelo

    Já imaginaram um mundo onde as mulheres comandam?

    elas podendo ter vários amantes e nós não!
    elas que já tem tanto poder não é mesmo?
    afinal nós homens, acho eu (um leigo), somos mais escravos dos desejos sexuais que as mulheres (por termos mais testosterona sei lá).

    Já somos de certo modo dominados assim, imaginem num mundo onde elas nos controlam não apenas sexualmente.

    seria um inferno 😛

    Mulher não é coitadinha.. sabem muito bem usar o charme para conseguir qualquer coisa: dês de fazer o motorista de ônibus dar aquela freiada brusca só para ela entrar (e ainda vem andando bem devagar fazendo o pobre coitado esperar ainda mais), Até literalmente seduzir o poderoso empresário e roubar todo o seu dinheiro.

    esses exemplos que citei são bem reais 🙂

    Mulher tem que ser mantida controlada mesmo. É bixo perigoso (e eu adoro correr perigo hehehehe)

  4. @AmBAr, um mundo dominado pelas mulheres já foi imaginado milhões de vezes. Muitas culturas têm um mito segundo o qual, no início, os homens eram subjugados pelas mulheres. As amazonas, inventadas pelos gregos, também era um mito desse tipo. E há feministas que acreditam que a humanidade era no início um matriarcado. Há algumas que querem que esse modelo de sociedade retorne. Há até homens que gostariam disso…

    Mas mesmo na atual configuração social, as mulheres têm amantes. Talvez tanto quanto os homens. Se estes tendem a possuir um apetite sexual maior, elas tendem a compensar uma insatisfação.

    As mulheres têm poder, sim. Nas sociedades humanas, o poder não é horizontal, como bem especulava Foucault. As redes de poder são emaranhados que permeiam toda a sociedade. As mulheres, como representantes de um grupo tradicionalmente dominado, encontra meios de exercer poder, usando aquilo que as torna tão temidas pelos homens: seu corpo sedutor.

    Mas achar que esse poder que elas detêm é suficiente para justificar a dominação masculina é não enxergar que aos homens se permite muito mais do que às mulheres. Se não houvesse desigualdade, elas não precisariam se defender de maneira ardilosa.

    Sim, elas seduzem, elas deixam os homens loucos com suas curvas, sua voz, seus meneios. Num certo passado, os homens simplesmente tomavam delas o que elas ofereciam. Talvez hoje em dia, quando não se aceita mais violentar, eles se sintam tão bobos porque não cresceram, não aprenderam a ser independentes, a ser interiormente fortes. Paradoxalmente, a maioria das mulheres quer homens assim, e não os que ficam babando por elas.

    Mas isso tudo é uma configuração social específica. Não nego que devam existir influências biológicas em nossos comportamentos, mas a cultura pode transformar pulsões vitais em seres humanos, machos e fêmeas, que convivem de maneira mais harmoniosa entre si.

    É fácil demais pensar que uma sociedade diferente da androcêntrica tenha que ser necessariamente ginocêntrica. O ideal mais libertário não é uma coisa nem outra.

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